domingo, 13 de dezembro de 2020

No futuro, como será o pouco de liberdade que nos resta?

Muito tempo sem postar. Admiro quem consegue seguir uma rotina de postagens frequente, pois não é fácil ter ânimo para postar semanalmente ou mensalmente.


O tema que me inspirou a escrever esta postagem é o pouco de liberdade que ainda nos resta (ao menos quem não pertence a uma casta de privilegiados e imunes, como políticos, jornalistas e ativistas de esquerda). Nossa suposta liberdade de expressão e de atuação é como se fossemos animais presos dentro de um cercadinho. Corremos de um lado para outro mas não podemos sair do espaço que quem controla nos permite. E o cercadinho está cada vez menor.

Destaco os acontecimentos com o empreendedor dono da Havan, Luciano Hang, e com o humorista Danilo Gentili como símbolos das crescentes restrições à pouca liberdade que ainda existe, ou que imaginamos que exista.

O empreendedor dono da Havan, recentemente, se envolveu em protestos na cidade de Pelotas - RS. A cidade é a única ou uma das únicas que decretou fechamento total do comércio, justamente nesta época de Natal, na qual há maior movimento nas lojas, já que boa parte do pessoal recebe décimo terceiro. 

Realmente é difícil identificar racionalidade na opção do gestor. Fatos como a liberação de aglomerações para carreatas e comícios, liberação da movimentação para votação nos dias de eleições (sem medição de temperatura, conforme estava recomendado pelas autoridades) e fechamento total da cidade uma semana depois da reeleição da prefeita ajudam a evidenciar que tudo não passa de palhaçada para amordaçar a população.

Independente de concordar ou não com as medidas decididas pela prefeita do PSDB, o fato é que o dono da Havan organizou protestos na cidade, em frente à Prefeitura. Apesar da aglomeração, a polícia e guarda municipal não coibiram o protesto pacífico. A coerção por meio do "poder estatal" aconteceu quando o dono da Havan se dirigiu ao aeroporto da cidade para ir embora. 

Quando chegou ao aeroporto, lá haviam cerca de dez agentes públicos, incluindo representante da secretaria de segurança pública, policiais e guardas municipais. No local, o empreendedor teve que assinar um monte de formulários, sob a justificativa de multas e processos administrativos por desobediência às medidas sanitárias. Talvez muitos dos policiais que ali estavam fizeram a intimidação a contragosto. Recebem ordens e sobra para eles caso não acatem. 

Após todo o show de como o estado é "poderoso" e como se faz "respeitar", o empreendedor foi liberado para ir embora. Destaca-se que há filmagens do ocorrido nas redes sociais do Luciano Hang. Nota-se que apesar do grande número de agentes que abordaram o empreendedor e sua equipe, o diálogo foi educado por ambas as partes. Mas o Luciano Hang é bilionário, influente e amigo do presidente. Será que com um cidadão não tão representativo a cordialidade seria a mesma? Ouso dizer que o cacetete seria bastante utilizado contra qualquer cidadão comum que dissesse um "a" para questionar a "violência legítima do estado" ( com e minúsculo mesmo).

Pois bem, não satisfeitos em multar o empresário, os burocratas locais agiram para movimentar o poder público para fechar a loja da Havan da cidade. A loja havia conseguido autorização judicial para funcionar no fim de semana. Demonstrando incrível eficiência, o judiciário foi acionado e emitiu liminar durante a madrugada do dia após os protestos e autorizou que a loja fosse lacrada, bloqueada, fechada. Não bastasse isso, na manhã seguinte, a guarda municipal enviou equipes até o estacionamento da loja Havan da cidade e passou a abordar quem passasse na frente da loja. Foram movimentadas diversas instâncias do poder público para intimidar e atingir o empreendedor, sobrando até para o cidadão comum que passasse frente à loja. Tudo isso para quê? Para fazer respeitar as medidas sanitárias e trazer o bem geral social? Não acredito nessa historinha. É muito mais factível que as ações foram para mostrar quem manda e como as coisas funcionam no país.

 A história do Danilo Gentili envolve o caso com a deputada petista Maria do Rosário. Esses partidos de esquerda possuem uma imensa equipe de advogados e utilizam processos administrativos e judiciais para intimidar os adversários. No caso do apresentador, ele recebeu uma censura da câmara dos deputados, a rasgou e a passou no saco, com exibição na tv aberta. O time de advogados da petista moveu processo judicial e o apresentador foi condenado à prisão em primeira instância, estando o processo em análise de recurso na segunda instância. O poder público irá realmente prender o apresentador? É algo muito parecido com o conceito de crimideia do livro 1984. A mensagem que fica é: não pode desrespeitar e mexer com o estado e com sua casta superior, caso contrário é pau e cadeia. Dá pra destacar a incoerência da situação: a deputada é imune para falar o que quiser, defendendo o estuprador Champinha, defendendo o agressor de mulheres amigo do partido (Zé de Abreu) e o que mais quiser. Já o apresentador e qualquer cidadão (desde que não seja da turma do bem) recebe processo, censura e cadeia. É a conhecida situação de não importar o que se diz, mas sim quem diz.

Ainda, tem o caso do inquérito das "Fake News" do STF, que agiu para intimidar supostos infratores, enviando policiais federais arrombarem a casa de quem ousou desrespeitar os excelentíssimos ministros.

Essa é a realidade do nosso país. Uma casta de burocratas poderosos e protegidos, que utilizam a máquina pública paga com o trabalho de todo mundo para se protegerem e para domar quem ousa enfrenta-los. E nós cidadãos, que pagamos impostos taxas e cumprimos centenas de outras burocracias, concordamos com tudo isso?

Quando irá mudar essa realidade? Penso que num futuro muito distante. Muitos não acordaram para essa realidade, já que os "intelectuais", a mídia, os funcionários públicos, e quem quer que seja não debatem sobre esse problema. Muitos ainda gostam e utilizam essa realidade para benefício próprio. Quem ousa debater o assunto é taxado de negacionista, conspirador, "reacionário". O futuro nos dirá se a sociedade irá evoluir. E o aspecto é realmente a evolução gradual e lenta. Revolta e ataques diretos ou uma "revolução" não são acontecimentos factíveis.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Armadilha para turistas

 Armadilha para turistas

        Estava visitando a cidade de Florianópolis e tive a oportunidade de observar um golpe que me deixou abismado pelo nível de sofisticação do esquema e como devemos estar sempre atentos, ainda mais no Brasil, terra dos espertinhos. O esquema é relativo à venda de cotas imobiliárias. Fiquei tão intrigado com a situação que pesquisei um pouco mais sobre o tema e sobre pessoas que acabaram tendo prejuízo com o golpe.

     Pude observar que o esquema é montado nas cidades turísticas brasileiras. Há reclamações de pessoas que visitaram cidades como Caldas Novas - GO, Olímpia - SP, Barretos - SP, Porto Seguro - BA e Penha - SC.


        Primeiramente, vejamos o relato de uma pessoa que foi vítima do esquema (fonte: https://www.proteste.org.br/reclame/lista-de-reclamacoes-publicas/reclamacoes-publicas?referenceid=CPTBR00631882-24):

        "Boa noite.
        Com base no exposto abaixo, eu Rubens dos Santos Alves Filho e minha esposa Edimara, vimos por meio deste exercer nosso Direito de Arrependimento de Compra, dentro do prazo legal de sete dias, conforme previsto no Art. 49 do Código de Defesa do Consumidor e solicitar o cancelamento do contrato de compra firmado entre nós e o grupo WAM Brasil, em 23/03/2019, referente a compra da uma Fração/Cota: 23 do Apartamento: 302, do empreendimento Solar Pedra da Ilha, localizado na Rua Goiás, Praia da Armação do Itapocoroy, 669, Penha-SC, com o estorno integral de todos os valores pagos e contratados.
        Descritivo da Ocorrência:
        No dia 23/03/19, eu e minha esposa estávamos de passagem pelo balneário Penha-SC quando fomos abordados na rua para que pudéssemos conhecer o empreendimento Solar Pedra da Ilha, o qual se tratava de um hotel em construção no local, de modo a poder conhecer a rede de hotéis da empresa e ganhar um brinde.
        Após sermos conduzidos até o local, nos deparamos com um showroom de vendas completo com maquetes, apartamento decorado e alguns vendedores e atendentes. Fomos recepcionados por outro funcionário da Wam Brasil, que nós fez uma apresentação geral do empreendimento, perguntas socioeconômicas e onde sentamos e iniciou a apresentação do empreendimento, abordando as características do empreendimento, belezas naturais da região, pontos turísticos, como funcionava o sistema de cotas imobiliárias, suas vantagens, etc. Após nos conduziu até um apartamento decorado demonstrativo do empreendimento. 
        Só ai já havia passado quase uma hora de apresentação, então o vendedor chamou mais outra pessoa, agora uma “gerente comercial” para dar sequência da apresentação. A gerente se apresentou e repetiu mais uma vez uma série de perguntas de caráter socioeconômico e enumerou as diversas vantagens e possibilidades do novo empreendimento. Logo após sacou a sua calculadora financeira e disparou uma rajada de projeções de ganhos de capital, valorização do bem, projeção de rentabilidade, comparativos com outros investimentos, curva de retorno do investimento, descontos, parcelamentos, etc.         Após encher umas três páginas de cálculos e gráficos nos perguntou o que faltava para que pudéssemos fechar negócio e adquirir uma ou mais cotas do empreendimento. Respondemos que achávamos a proposta interessante, mas como estávamos apenas de passeio e não tínhamos saído com a intenção de fazer qualquer negócio desta natureza e, portanto não saberíamos avaliar com clareza se todas as informações que eles nos haviam prestado eram verídicas e consistentes e que antes de fazer fechar qualquer negócio gostaria de fazer uma pesquisa e traçar as nossas próprias projeções e estimativas e que num segundo momento, caso nós concluíssemos que o negócio atendesse as nossas expectativas, poderíamos voltar a conversar e negociar. E que precisaríamos no mínimo de uma semana para analisar todos os pontos.
        Como um ar de ironia e superioridade, a gerente respondeu que já havia feito este trabalho por nós e começou a traçar mais uma série de comparativos e projeções. Novamente nós agradecemos e respondemos que a nossa decisão de fazer um investimento não poderia ser baseada somente nos dados que o vendedor nos apresentava e que nós gostaríamos de chegar as nossas próprias conclusões com conta própria. Imediatamente ela me respondeu que aquela proposta era valida exclusivamente naquele momento e naquele showroom e que caso nós deixássemos o local e tivéssemos interesse futuro de fazer negócio, a negociação deveria ser feita por intermédio de imobiliária, com valores bem maiores e pagando todas as taxas de corretagem da imobiliária.
        Agradecemos novamente e dissemos que naquele momento, pelos motivos que nós já havíamos explicado, nós não poderíamos fechar nenhum negócio.
Então a gerente comercial pediu licença e saiu da mesa. O vendedor nos pediu alguns minutos para a impressão do voucher do brinde escolhido.
Enquanto aguardávamos, eram anunciados os “Novos Felizes compradores de cotas no Solar Pedra da Ilha”. 

        Na sequência a gerente retornou a nossa mesa com uma nova proposta e recomeçou as sua investida em nos vender cotas do empreendimento. Nós agradecemos e repetimos sucessivas vezes as nossas negativas e motivos para não fechar o negocio naquele momento, mas a gerente sempre saia da mesa e retornava com um proposta mais “atrativa” e reiniciava as suas investida para venda, e enquanto isso eram anunciados os “Novos Felizes compradores de cotas no Solar Pedra da Ilha”.
        Já haviam se passado praticamente três horas de muita insistência e tentativas de nos persuadir a adquirir cotas empreendimento, sem que o voucher do brinde fosse trazido e cansado de tudo aquilo nos levantamos para ir embora, então a gerente veio novamente com uma nova proposta, mais “atrativa” que as anteriores e reiterando que tal proposta era válida somente naquele momento e não haveria a possibilidade de fecharmos o negócio em um momento futuro.
        Já cansados mentalmente daquilo tudo, sem a possibilidade de analisar calmamente todos aqueles dados e projeções e sob a pena de perder todos os benefícios que estavam sendo ofertados naquele momento, aceitamos adquirir uma cota do empreendimento.
No aguardo.
        A compra foi referente a uma fração da cota Nº: 23, do apartamento 302, do empreendimento “Solar Pedra da Ilha”. O pagamento foi realizado em 7x iguais de R$ 570,00 no cartão de crédito + 72 x R$479,86 + 4x 50,00. Após fechar o negócio tivemos de assinar uma pilha de documentos previamente preenchidos, sem que tivéssemos tempo hábil de ler tudo o que constava neles.
        Após retornarmos de nosso passeio por Santa Catarina, realizamos uma vasta consulta referente ao empreendimento contratado, aos valores médios de diárias na região, as taxas de ocupação da rede hoteleira da região, aos custos de manutenção do empreendimento, as vantagens e descontos da Clube CIA, sobre outros empreendimentos semelhantes em construção nas proximidades, projeções de valorização, etc, e constatamos que a maioria do que me foi mostrado é baseado somente em suposições extremamente otimistas e fantasiosas e que em sua maioria não eram consististes e fundamentadas. Realizando uma busca nos sites de reclamação da internet encontramos diversas reclamações de casos semelhantes ao nosso pedindo o cancelamento do contrato.
        Após realizar a pesquisa, nos sentimos profundamente chateados e enganados, vitimas de um esquema inescrupuloso que visa coagir e persuadir pessoas sem interesse de investir no empreendimento a comprarem cotas sem que possam ao menos fazer uma prévia avaliação das vantagens e desvantagens do mesmo. Isso configura claramente uma conduta de enganação e ludibriação por parte do grupo WAM BRASIL.
        Com base no exposto acima, vimos por meio deste exercer nosso Direito de Arrependimento de Compra, dentro do prazo legal de sete dias, conforme previsto no Art. 49 do Código de Defesa do Consumidor e solicitar o cancelamento do contrato de compra firmado entre eu e minha esposa e o grupo WAM Brasil, em 23/03/2019, referente a compra da uma Fração/Cota: 23 do Apartamento: 302, do empreendimento Solar Pedra da Ilha, com o estorno integral de todos os valores pagos e contratados."


O esquema


         Tudo começou quando fui visitar a Praia Brava, em Florianópolis. No caminho para se chegar à praia há um mirante. Era um horário próximo ao almoço e paramos nesse mirante (detalhe importante). Outro detalhe importante a ser observado é que havia uns 5 ou 6 carros estacionados no mirante, porém não havia turista algum no local. É muito provável que esses carros sejam deixados parados no local para servir de isca. Eu só parei nesse lugar porque vi os carros estacionados. Daí já se observa que os caras pensam em todos os detalhes. Pois bem, ao parar no mirante, apareceu um rapaz oferecendo uma visita guiada a um empreendimento hoteleiro da Praia Brava. A justificativa dada é que a visita seria rápida, coisa de 30 minutos, e que o intuito era a divulgação do empreendimento por meio do boca a boca, além do oferecimento de um voucher com três diárias com excelente desconto caso fosse efetuada a visita naquele momento. Eu já tinha ciência de que não existe almoço grátis e que aquilo era um esquema, mas aceitei o convite para ver qual era a real da situação.

        Ao chegar no empreendimento hoteleiro, o rapaz mostra rapidamente a estrutura de piscinas, de restaurante, da sauna, das salas de reuniões e do saguão do hotel, após, um funcionário do hotel pergunta nome, CPF, profissão e renda mensal para preenchimento do voucher com o desconto. Daí já não resta dúvida alguma que é uma tentativa para ludibriar desavisados.

        Depois, a estratégia do esquema é uma leve enrolação, talvez para criar expectativa na possível vítima ou para fazer com que se sinta mais pressionada pelo tempo perdido. O funcionário do hotel diz que o consultor está atendendo outra pessoa e que em cerca de 15 minutos pode ser liberado para me atender. Como disse que não esperaria, na hora disseram que por sorte o consultor estava livre e viria imediatamente.

        Nisso vem um consultor: teatralmente simpático, camisa estilosa, todo divertido e cheio de querer ser engraçadinho. O consultor utiliza diversas técnicas de engenharia social para fazer um diagnóstico da possível vítima. Pergunta sobre gostos pessoais, profissão, origem, desejos e preferências diversas. No meu caso, o diagnóstico do cara foi um perfil família, então ele bateu na tecla da família por diversas vezes ao contar sobre como conheceu a esposa, sobre o filho etc.

        O consultor me levou até uma unidade de apartamento do empreendimento hoteleiro e passou a explicar sobre o conceito de multipropriedade, que é a aquisição de cotas de um quarto de hotel para que o adquirente faça o uso. Em um primeiro momento, não explica de modo profundo como funciona o sistema de cotas, mas prioriza mostrar o apartamento. O consultor mostra como é funcional e bem aproveitado o espaço do apartamento, como é bom o acabamento e os materiais escolhidos, como são bons os móveis e os eletrodomésticos, tudo pra agradar a possível vítima.

        Nesse vai e vem, já passou uma hora até que o cara terminou de apresentar o apartamento. A partir disso, o consultor apresenta a suposta história da família que criou o empreendimento hoteleiro e a história da Praia Brava, dizendo mil maravilhas sobre o local, como a limpeza da praia, a segurança e tranquilidade, a proibição de novos empreendimentos (que não sei se é verdade ou não), que o Guga e a Adriana Calcanhoto possuem apartamentos no bairro e qualquer outra suposta vantagem da região.

        Posto isso, após mais de uma hora, chega o momento de entrar na sala de negociação: pude observar a presença de oito adultos e, pasmem, uma criança com cerca de cinco anos. O circo é todo montado para que a possível vítima acredite que há mais pessoas negociando no local, porém, do relato de vítimas, verifiquei que é uma estratégia usual utilizar os atores para ludibriar os desavisados.

        Numa mesa mais afastada do canto, havia dois homens de meia idade vestidos com trajes sociais. Numa mesa mais ao centro, havia uma suposta vendedora e um casal de meia idade. Numa mesa mais próxima, havia outra suposta vendedora e um casal jovem acompanhado da criança. Todas essas pessoas conversavam sem parar, simulando a negociação e dúvidas sobre o sistema, conforme as conversas que consegui captar.

        A estratégia do consultor é prender a possível vítima com o discurso bonito das vantagens da aquisição das cotas e bombardear informações, vencendo a pessoa pelo cansaço mental. Como o brasileiro médio é completamente ignorante, é possível que não entenda muita coisa do que o consultor diz. 

        Após 1h30 de enrolação, finalmente veio a proposta: aquisição de 1/13 de um apartamento de cerca de 32m² do empreendimento hoteleiro, com um rodízio de utilização de 28 dias anuais, divididos em quatro semanas, sob regime de utilização via sorteio, sendo uma semana na altíssima temporada, 1 semana na alta temporada e duas semanas na média temporada (existe isso?).

        A incrível proposta era no valor de R$ 132.900,00 à vista, ou com opções parceladas. O consultor mostrou que era muito fácil adquirir uma cota. Era possível pagar um sinal de R$ 7.200,00 parcelado em até 10x, o saldo restante poderia ser financiado em 8 anos. A parcela inicial seria baixinha, com o pequeno detalhe de que o contrato previa correção de IGPM + 0,5%. Segundo o consultor, o IGPM vem sendo negativo nos últimos tempos.

        Após sanada minha curiosidade sobre o que era realmente a oferta, dei sinais de que estava satisfeito com a explicação e queria ir embora, pois estava com fome e já tinha passado o horário bom para almoçar. Nisso pude ver mais algumas técnicas elaboradas para ludibriar os desinformados. O Consultor se levantou para conversar com o "gerente". Após voltar, a vendedora da mesa central se levantou e, em voz alta, anunciou que o casal de meia idade era o mais novo proprietário de uma cota de apartamento, pediu palmas para os felizardos e abriu um espumante.

        Nisso, o consultor gritou em voz alta e de maneira teatral: "Esse ama a esposa".
Feito isso, disse mais algumas vantagens e maravilhas do empreendimento e reiterou como era fácil pagar a cota e como seria benéfica a aquisição. Detalhe, não haveria a oportunidade de estudar e calcular detalhadamente a aquisição. Era uma oferta somente para o momento, sob a justificativa de ser "injusto" para com os demais eu adquirir posteriormente tão benévola oferta.

         Como caguei para os novos argumentos, foi a vez da mesa do casal jovem se manifestar: a vendedora se levantou e em voz alta parabenizou os novos proprietários de uma cota de apartamento. Mais uma vez, o consultor que me atendi gritou em tom teatral: "esse ama a esposa".
Já cansado de tanta maracutaia e até assustado com a situação, fiquei mais uns 10 minutos ouvindo o consultor insistente e consegui me desvencilhar. No fim, o cara percebeu que eu não iria cair. Levantei e fui embora.

        A lição de tudo isso é que eu devo ter cara de bobo para tanta insistência por parte dessa turma toda, além de que perdi quase 2h do meu passeio. Porém, é bom para ficar esperto. Tem malandro em todo o canto e tem gente que cai nessa. Para quem tem a mente fraca, perde pelo cansaço e sai no prejuízo. As técnicas de persuasão são sofisticadas e tentam atacar o emocional da pessoa, seja pela pressão, fome, estresse, constrangimento.

        Aparentemente, o sistema de cotas imobiliárias não é ilegal, embora seja claramente desvantajoso para as pessoas que adquirem, a maioria classe média baixa. É um meio pelo qual esses empreendimentos imobiliários e hoteleiros utilizam para levantar fundos. Como as vítimas que adquirem são na maioria pessoas leigas, quem ganha é sempre quem vende esse negócio. Fiquem espertos quando foram visitar as cidades turísticas brasileiras por aí. Não existe almoço grátis (no fim até ganhei o voucher prometido, mas joguei fora, claro).






domingo, 2 de agosto de 2020

Democracia

Democracia: conceito deturpado?


           O momento atual tem sido útil para refletir sobre os problemas que o Estado cria para a população sem que exista a responsabilização pela escolha inconsequente dos burocratas.

         O livro Além da Democracia, de Frank Karsten e Karel Beckman, elucida alguns mitos e fatos sobre o conceito de democracia. É um livro provocativo e de fácil leitura, no qual os autores enfrentam o último tabu político: a ideia de que a nossa salvação está na democracia. 

            Deixo o prefácio do livro para estimular quem se inquiete com o tema e o link para o download do e-book ao final. Façam bom proveito.


Prefácio 


          "Pode parecer pouco razoável ou mesmo uma loucura criticar a democracia tão  fortemente como  fazemos neste  livro. Após a  queda do comunismo, a democracia foi considerada a alternativa certa. Os oprimidos deste mundo estão ansiosos por mais liberdade e democracia, logo, como alguém pode ter a ousadia de falar mal dela? Apesar de criticarmos firmemente a democracia, há poucas razões para você se sentir  ofendido  ou  alarmado.  

              Não  é  nossa  intenção  privar  as  pessoas  da democracia, as pessoas devem ser livres para viver sob o sistema político que quiserem.  Também não afirmamos que a democracia é melhor ou pior do que a ditadura ou que os problemas que descrevemos no livro são consequências exclusivas do sistema democrático. No entanto, nós descrevemos os problemas inerentes à democracia parlamentar e explicamos porque é que os princípios e as dinâmicas deste sistema político altamente elogiado não levam aos resultados desejados. 

           Hoje em dia podemos olhar para as crises que surgiram em muitos países democráticos, nomeadamente nos Estados Unidos, na Grécia e na Espanha. Estes problemas não são atribuídos ao próprio sistema democrático, mas sim ao mercado livre, à ausência de democracia, aos banqueiros gananciosos ou aos políticos traiçoeiros.  

       Tal como a maioria das pessoas, eu também tinha fé na democracia parlamentar. Isso foi há quinze anos. Na verdade, eu sabia muito pouco sobre a democracia, mas mesmo assim tinha fortes crenças nela. Como a maioria de nós, foi-me dito - por intermédio do sistema de ensino, dos meios de comunicação e dos nossos políticos – que a democracia era algo que deve ser valorizado e cultivado e que não havia alternativa razoável. No entanto, depois de estudá-la e contemplá-la, eu cheguei a uma conclusão muito diferente. 

                Muitas pessoas ainda acreditam que democracia é o mesmo que liberdade. E muitos indivíduos amantes da liberdade ainda acreditam que o caminho adequado para mais liberdade é através do processo democrático. Muitos críticos da democracia estão convencidos de que ela precisa de conserto, mas não encontram nenhum problema nos  seus próprios princípios fundamentais. 

              O nosso livro refuta essas noções. A democracia é o oposto da liberdade – quase inerente ao processo democrático é que ele tende para menos liberdade, em vez de para mais – e a democracia não tem conserto. A democracia é um sistema coletivista  que está  intrinsecamente  quebrado,  tal como o socialismo. Estas idéias contraditórias são bastante originais, mesmo na escala mundial. 

             Hans-Hermann Hoppe escreveu um livro acadêmico, o qual entitulou de  Democracia: O Deus Que Falhou  e alguns artigos sobre o assunto mas, tanto quanto sabemos, não existia um livro que fosse  conciso,  estruturado  e  fácil  de ler,  que  mostrasse  as  fraquezas  inerentes  e  a  dinâmica  da  democracia,  a  partir  de  uma  perspectiva  libertária e de paixão pela liberdade. 

           O nosso livro é para o indivíduo mediano. Ele não poderia ter vindo em melhor hora, já que muitas democracias debatem-se com problemas sociais e econômicos e as pessoas estão procurando explicações e soluções. Possivelmente, você está decepcionado com os seus políticos e tem esperança que outros melhores virão. 

                 Este livro explica porque é que você não deve culpá-los, mas sim o próprio  sistema  democrático.  Em  vez  de levar os  seus  políticos  a  sério, é melhor zombar deles. Isso prejudicará a sua legitimidade e o seu poder.  Veja  você,  o  sistema  democrático  gera,  automaticamente,  políticos que prometem mais do que podem cumprir porque os políticos que prometem mais são os que serão eleitos. Então, porquê culpá-los? E, já que  os  políticos  democráticos  sabem  que  só  vão  estar  no  poder  apenas temporariamente, eles vão gastar demais, cobrar impostos demais e endividar demais, sabendo que serão os seus sucessores (ou melhor, as gerações futuras) que terão que pagar a conta. E, além disso, eles gastam dinheiro que não lhes pertence. Então, porquê esperar o contrário?  Você se comportaria melhor se fosse membro do Congresso? Eu duvido. 

              Há dez anos, eu estava decepcionado com a política e me sentia frustrado com isso. Eu pensei que seria preciso me tornar politicamente ativo para mudar as coisas para melhor. Agora percebo que o melhor que posso fazer é expor as falhas no sistema democrático, tirar sarro dos políticos e não esperar nada de bom deles. O famoso escritor George  Orwell  disse  uma  vez, “Toda  piada  é  uma  pequena  revolução”. 

           O  humor  é  considerado,  em  parte,  responsável  pela  queda  do  comunismo soviético. Ele expõe os absurdos políticos e rebaixa o status dos políticos.  Então,  dê  umas  boas  risadas  dos  políticos;  isto  é  muito  melhor para a sua saúde do que ficar frustrado. Eles são os reis que estão nus:  as  suas  promessas  são falsas  e  suas  soluções  não  funcionam. As soluções que os seus políticos democráticos constantemente sugerem consistem em dar-lhes mais dinheiro e poder, não importa quantas vezes eles já falharam no passado. As percepções que eu ganhei por escrever  sobre a  democracia,  tem me  dado mais  paz de  espírito.  A política e os políticos não me frustram mais. Eu partilho essas idéias neste livro, na esperança de que elas possam ter o mesmo efeito em você."


Frank Karsten

Link para download  do e-book: https://www.mises.org.br/Ebook.aspx?id=145


domingo, 17 de maio de 2020

Aquisição consciente de carro

Necessidade de comprar um carro


A ideia da postagem surgiu depois da leitura do post do Pinguim Investidor, como comprar um carro de maneira inteligente.

Antes de tudo, a análise da necessidade da compra de um carro deve levar em consideração o nível de renda da pessoa, as condições da cidade ou do local onde reside e o uso que será demandado desse carro.

A realidade de um jovem solteiro que precisa se deslocar ao trabalho ou faculdade é diferente da de um pai de família que precisa deixar crianças na escola e esposa no trabalho. A realidade de uma cidade do interior é diferente de uma cidade grande, que, além do transporte público, tem grande oferta de viagens por aplicativos, porém tem também o fator trânsito nos horários de pico.

Morar perto ou longe do trabalho, da escola, do mercado, da farmácia, do hospital, da academia, além das condições de saúde da pessoa ou da família também são fatores abordáveis para avaliar a necessidade de compra de um carro.

Cidades maiores dispõem de aplicativos de viagem (Uber, 99, Cabify etc) e há também a opção de alugar um veículo. Porém, a opção por aplicativo, aluguel ou carro próprio vai depender muito do contexto de vida de cada um, dos gostos pessoais e de quanto a pessoa pode disponibilizar para os custos com transporte.

Aplicativos geram a dependência da atuação de terceiros, assim, podem ocorrer atrasos ou transtornos que não seriam causados caso se utilizasse um carro próprio. Aluguel de veículos eu desconheço se é vantajoso financeiramente.

Há também as pessoas que gostam de carros, os entusiastas, que trabalham e gostam de se proporcionar um pequeno luxo por meio de seus veículos.

Também coloco o fator experiência ao volante. Na minha opinião, homem tem que saber dirigir e dirigir bem. O cara que não dirige acaba por perder as habilidades, e fica feio ver marmanjo que não sabe fazer baliza ou que deixa o carro morrer em qualquer subida.


Cabaço no volante

O tempo de utilização do carro adquirido também deve ser estimado. Uma utilização por pelo menos 4 ou 5 anos é um parâmetro razoável, pois muitas marcas oferecem um período de garantia de até 5 anos, e são diminuídos os custos com depreciação, que é mais acelerada no início da vida útil do veículo. Quem troca de carro a cada 2 anos acaba sofrendo muito mais com desvalorização.

Entretanto, considerando que um carro é um passivo, a compra consciente do veículo deve levar em conta os gastos necessários para a aquisição e para a manutenção em contraposição aos benefícios proporcionados.

Comprar Carro 0 Km ou carro usado?


A escolha pelo modelo do carro depende de quanto dinheiro a pessoa tem e de quão urgente é a compra. Do ponto de vista financeiro, a compra à vista é sempre a melhor escolha, porém nem sempre a pessoa tem dinheiro suficiente ou a paciência de esperar meses para acumular o montante.

No caso da compra do carro 0 km, o pagamento à vista nem sempre é o mais vantajoso. Os vendedores ou concessionárias não têm vantagem em vender um carro à vista e nem sempre darão algum desconto, pois eles preferem vender financiamentos.

Apesar de uma dívida não ser o ideal, podem existir condições interessantes: já vi opção de venda de carro 0 km com uma entrada expressiva (60% ou algo aproximado) e parcelamento do restante em 12x a 48x, com juros de aproximadamente 0,6% ao mês.

No caso dos carros usados, há alguns riscos envolvidos: carros batidos ou de leilão maquiados sendo vendidos pelo valor de um carro impecável; carros com problemas mecânicos crônicos; carros com manutenção ruim dos antigos proprietários; restos de rico com manutenção e peças caras.

Melhor andar a pé do que comprar uma carroça cheia de problemas

A escolha por um carro usado demanda maior conhecimento e experiência para que seja efetuada uma boa aquisição. O ideal é que o comprador entenda alguma coisa sobre mecânica ou sobre o veículo que pretende adquirir ou que tenha um bom e confiável mecânico, pois a manutenção pode pesar no bolso.

A compra na garagem tende a ter uma negociação difícil, pois os donos da garagem dificilmente irão vender um carro bom pelo preço muito abaixo da FIPE, a margem de negociação é menor. A compra de particulares pode ser mais interessante, pois é possível identificar o uso e a manutenção do veículo e é possível obter melhor margem de negociação, ressalvados riscos de golpes financeiros ou até de assaltos.

Conhecimento sobre o mercado para filtrar os modelos


Para o uso racional dos recursos com transporte, caso haja realmente a necessidade de comprar um carro, é necessário escolher o modelo com inteligência.

Penso que, caso se prefira comprar um carro novo, a escolha por um Hatch compacto popular é a mais adequada, pois são mais baratos, têm peças mais baratas, consumo mais barato, seguro mais barato e são mais fáceis de revender. Comprar o SUV da moda ou o Hatch/Sedã médio, caso não seja um entusiasta de algum modelo específico, servirá só para impressionar o vizinho/parente ou para inflar o ego, e custará bem mais caro.

Penso que é importante escolher um carro que seja fácil de manter e fácil de vender depois. Isso envolve até a escolha da versão e da cor do veículo. Escolher a versão mais barata pode dificultar um bom preço de revenda posteriormente, assim, talvez seja melhor pegar uma versão intermediária, melhor equipada, porém sem exageros e sem opcionais desnecessários.

Vindo com um kit dignidade e retrovisores pintados já está de bom tamanho. Nada de escolher cor amarela, laranja ou verde. Um carro discreto de cor branca, cinza ou prata vai ser fácil de revender. É bom evitar o preto e o vermelho, pois são difíceis de manter e deixam riscos, manchas e sujeiras mais aparentes, além do preto esquentar muito.

Escolher uma marca bem conceituada e consolidada no mercado também é a melhor escolha. Carros franceses/chineses têm histórico de desvalorização alta, carros japoneses tendem a desvalorizar menos, porém custam mais caro. Dentro da realidade do mercado, o jeito é não fugir muito do tradicional: Chevrolet, VW, Hyundai. Fiat e Ford não gosto muito e considero que têm produtos inferiores aos concorrentes, sem que o preço seja inferior, mas é impressão pessoal.

Estamos no Brasil. Não tem muito pra onde fugir.

Quanto aos carros usados, o leque de opções é muito maior, mas é bom ter cuidados na hora da compra. A quilometragem é um parâmetro importante. Perto dos 60 mil km é necessária uma manutenção maior e mais cara, então no preço de compra deve ser considerado o valor dessa manutenção para abater da FIPE.

Carros com quilometragem muito alta, acima dos 100 mil km, podem ser perigosos, pois com esse nível de utilização podem apresentar diversas peças desgastadas e comprometidas.

Numa perspectiva ideal de compra de carro usado, é interessante encontrar algo em torno de 40 mil km, máximo de 4 anos de uso e que seja de único dono ou no máximo de segundo dono.

A escolha por um câmbio manual ou automático também deve ser levada em consideração. É importante pesquisar sobre alguns modelos específicos para detectar possíveis problemas: Focus com câmbio automático powershift tem péssima reputação, Ford Fusion automático também já vi parado na oficina com câmbio travado, Fiat com câmbio duallogic também é mal falado, já vi câmbio automático de Golf quebrar e dar perda total da peça, enfim, é importante estudar sobre os modelos e versões antes de fechar negócio. Câmbio automático em carro usado envolve riscos maiores, já que se quebrar, o custo para consertar é quase igual ao valor do carro e pode não ficar bom.

Carro usado que seja difícil de revender é um problema também. Penso que é importante considerar o fator de revenda, pois a aquisição racional de um carro o vê como um objeto para satisfazer a necessidade de transporte, não como um item de satisfação pessoal, como a visão do entusiasta. Carros franceses e chineses tendem a ser mais difíceis de revender. Pessoalmente, não gosto dessas marcas, já que, apesar de os carros serem bonitos e com bom acabamento, demonstram uma certa fragilidade e custam caro para arrumar, o que explica a dificuldade de revenda.

Os chamados restos de rico, talvez não sejam a melhor opção para aquisição. Apesar de muito atraentes, pois são carros de luxo pelo preço de um populixo de plástico novo, podem dar muita dor de cabeça se a pessoa não for capaz de arrumar boa parte dos problemas possíveis do carro sozinha. As peças são mais caras e mais difíceis de encontrar. Restos de rico são uma opção para entusiastas, não para o trabalhador que usará um carro para o dia a dia.

Conclusão


Supondo que a pessoa tenha decidido pela necessidade de compra de um carro, penso que boas aquisições seriam as seguintes:
Se não tenho dinheiro suficiente para pagar um bom carro à vista e preciso de um carro, interessante consultar as opções das concessionárias para negociar um carro novo, lembrando que o ideal é não fazer dívida para comprar um passivo, então é melhor juntar mais dinheiro ou rever a real necessidade da compra.
Tenho dinheiro para comprar um populixo à vista e quero um carro novo: eu prefiro ir de marcas mais consolidadas e com veículos com boa aceitação no mercado: Hyundai HB20 ou Chevrolet Onix. Fiat Argo é um pouco mais caro e considero os concorrentes melhores, Ford Ká também não me agrada e Ford tem manutenção mais cara, Toyota Etios tem o preço muito alto, Nissan March não sei se a marca oferece bom suporte, Renault, Peugeot e Citroen têm alta desvalorização, Fiat Mobi e Renault Kwid não cogito, pois são muito básicos (mais básicos do que os populixos).
Tenho dinheiro para comprar um carro usado à vista: penso que seja interessante procurar anúncios de particulares, com cuidado para não cair em golpes, já que há opções de carros muito bons com preços interessantes: além dos populares HB20 e Onix, dá para encontrar Honda Civic, Toyota Corolla, Chevrolet Cobalt e Prisma, talvez até o Jeep Renegade, o ano e versão dependem do bolso do comprador.

domingo, 10 de maio de 2020

A cultura brasileira de amor ao Estado

Tem que regulamentar isso aí, tá ok?


Neste texto irei fazer algumas divagações sobre a cultura do brasileiro médio de amar o Estado e a sua intervenção, mesmo que de forma inconsciente, e alguns dos malefícios que a falta de reflexão sobre o assunto causa a todos dentro da sociedade. O texto terá o caráter mais de divagar do que se aprofundar ou apontar fontes científicas sobre o tema, portanto, pode ser raso em alguns apontamentos.

Quando se entra em redes sociais, a exemplo de grupos de reclamações ou sugestões de determinada localidade, ao verificar uma denúncia ou reclamação sobre determinado tema, preço de um produto na farmácia, exploração de algum indivíduo para obter vantagens financeiras, práticas inidôneas para auferir lucro, por exemplo, será fácil notar diversos comentários do Zé das Couves e da Maria das Acácias dizendo: o Governo tem que multar, a Prefeitura tem que fazer uma lei pra proibir, o Estado tem que regulamentar etc.

Ao conversar com a maioria dos brasileiros médios, o teor da argumentação será o mesmo: no geral, as pessoas pensam que todos os problemas da sociedade precisam de regulamentação ou ação punitiva do Estado para serem mitigados ou solucionados. Teoricamente o Estado é a entidade intelectual suprema que tem a solução para tudo.

Porém, poucos pensam que a atuação consciente de cada um pode ser o meio para reprimir e afastar práticas danosas ao convívio social. O mesmo cidadão que pensa que deve ser aplicada multa a suposto preço abusivo de comércio pode ser o indivíduo que cometerá abusos na venda de algum item, caso tenha a oportunidade; a cidadã que pede a regulamentação dos serviços de salão de beleza, por exemplo, pode ser a que irá descumprir os regulamentos da classe por serem abusivos.

Independente da discussão da conduta ética ou idoneidade moral de cada um, o que se discute é se a intervenção estatal é benéfica em todos os campos de atuação da convivência humana e da organização social.

A Constituição Federal como garantidora do Estado Social


No Estado Social, a ordem jurídica estabelece obrigações para que o Estado atue em prol de seus cidadãos, corrigindo os naturais desvios do chamado individualismo clássico liberal, para que se possa alcançar a suposta verdadeira justiça social.

O Estado Social seria aquele que busca como Estado de coordenação e colaboração, amortecer a teórica luta de classes e promover, teoricamente, a justiça social e a paz econômica.

Na Constituição Federal de 1988 há diversas disposições sobre o tema, nos artigos 1.º, III; 3.º, I, III e IV; 5.º, LV, LXIX, LXXIII, LXXVI; 6.º; 7.º, I, II, III, IV, VI, X, XI, XII; 23; 170, II, III, VII e VIII.

Em suma, a Constituição Federal de 1988 colocou o Estado como provedor dos direitos sociais. Segundo o artigo 6.º, são direitos sociais: a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância e a assistência aos desamparados.

A diferença entre o texto constitucional e a realidade


Tudo muito bonito no texto da Constituição Federal de 1988, pena que é uma utopia e que muito pouco disso é observado na prática. 

O filho da Zé das Couves tem um ensino de qualidade nas escolas públicas? caso a escola seja sucateada e com professores mal remunerados e mal preparados, ora, mas a Constituição Federal não disse que a educação, supostamente de qualidade, é um direito social garantido a todos?

Direito à educação. É assegurado nessa situação?


Se o direito à alimentação é garantido constitucionalmente, então não há brasileiros passando fome? e quanto ao trabalho, já que os constitucionalistas o previram como direito, será que não há desempregados ou trabalhadores informais? 

Direito à alimentação, garantido a todos?


E o lazer e segurança, será que se eu for na praça pública, e lá estiverem dezenas de maconheiros, terei uma equipe policial eficiente e prestativa que me garanta o direito de lazer?

Todas essas são questões exemplificativas que atestam que nem sempre são atingidos os objetivos planejados pelos instituidores de leis. É importante ter em mente que o Estado é formado por homens, pessoas físicas, portanto, cheios de falhas, deficiências e interesses. 

O brasileiro deveria sempre questionar o motivo pelo qual está sendo instituída uma regulamentação, uma lei, porque está sendo aplicada uma multa e se é o Estado que tem que agir ou se cada pessoa no âmbito de sua consciência que deve atuar para que se atinja o bem a si própria e, consequentemente, o bem para todos.

Os agentes do Estado e seus interesses


Como dito, os legisladores, funcionários públicos e toda a gama de agentes a serviço do Estado, são pessoas que podem falhar ao planejar determinadas ações ou podem estar a serviço de interesses egoístas ou benéficos a apenas uma parcela de pessoas específicas, em detrimento de todo o resto da sociedade.

Cita-se o exemplo do Ditador Comunista Mao Tsé-Tung, que em 1960 ordenou o extermínio de 1 bilhão de pardais, supostamente para aumentar o rendimento da agricultura chinesa, já que os pássaros estariam comendo grãos das plantações. Pois bem, a ordem foi cumprida pela população com a fiscalização dos agentes do Estado. o resultado foi o aumento drástico de insetos e pragas nas plantações, com a consequência de pioras na produção agrícola que causaram a fome e morte de milhões de pessoas. 

A ideia genial de um representante do Estado


No histórico da sociedade brasileira, quiça mundial com as peculiaridades de cada região, o que se observa é que são os líderes quem ditaram as regras e deram os rumos de cada sociedade, o que obviamente não poderia ser diferente. No contexto atual, quem seriam esses líderes? supostamente as castas políticas e seus aliados, que dominam o país há décadas, seja em âmbito nacional, estadual, regional ou municipal. Em qualquer cidadezinha sempre vai ter a temida família X, tradicional e influente na política local, além dos empresários, comerciantes e aliados políticos locais. Esse é o sistema no qual vivemos.

Para essas castas políticas, seus aliados da iniciativa privada e os funcionários públicos, especialmente os de postos mais elevados, dificilmente são descumpridos os direitos sociais constitucionais que lhe foram assegurados.

O herdeiro da família X provavelmente estudou na melhor escola particular da região, tem plano de saúde, se alimenta bem (até com produtos importados), não deve ter problema com trabalho, pois teve formação superior e se quiser pode ocupar um carguinho comissionado indicado pelos amiguinhos do papai, e tem amplo direito ao lazer, seja com passeios de lancha no fim de semana, viagens internacionais para o mundo desenvolvido ou até praticando manobras perigosas com seu carro importado e potente, já que os agentes do Estado não devem importunar o pobre garoto em seus momentos de lazer.

Quanto aos funcionários públicos, em que pesem sejam importantes agentes para viabilizar as ações do Estado para a prestação dos serviços públicos, penso ser válida a crítica quanto ao forte corporativismo existente entre as diferentes classes, algumas em maior grau. O país pode estar com um caos instalado, com um percentual enorme de pobres e miseráveis, mas lá estarão os pedidos de concessão de aumentos e de benefícios a determinadas classes. E serão todos concedidos, pois o lobby de algumas classes é gigantesca e são elas que viabilizam ou atrapalham a estrutura do Estado. Podem colocar os argumentos que forem, mas esses pedidos de benefícios em detrimento dos pagadores de impostos são puramente egoístas e é o cidadão quem vai custear isso, de uma forma ou de outra. 

O canto da sereia dos defensores dos oprimidos


Diante de toda essa realidade, na qual milhões de cidadãos que não refletem sobre a estrutura social e sobre a atuação do Estado e como ele age, o que se vê é uma grande parcela da sociedade que não tem acesso à educação, à saúde, ao emprego, ao lazer e a diversas outras premissas de uma vida digna. Pelo contrário, têm suas mentes aprisionadas e são intimidados pelo poder de violência legítima do Estado.

Esses milhões de escravos mentais formam uma população sofrida e facilmente sugestionável. A pessoa não teve uma base educacional sólida, tem uma vida sofrida e nunca aprendeu a pensar por si mesma, então qualquer falastrão que diga que defende os pobres e os oprimidos contra os inescrupulosos patrões, latifundiários ou seja lá quem for o opressor (o qual dificilmente será o Estado ou o sistema) tem o crédito e o amor por parte dos indivíduos fragilizados.

O burocrata que propõe a instituição de uma nova lei, de uma nova regulamentação ou da aplicação de sanções aos supostos opressores também terá grande apoio popular. Os indivíduos não observam as consequências danosas ou que  atrasem o desenvolvimento local em algum grau. A falta de reflexão faz com que eles se limitem a ver o ato do Estado como algo positivo e inteligentemente pensado, talvez que lhe traga algum benefício, o que nem sempre é verdade.

Nisso entra como exemplo as leis e aparatos trabalhistas, que supostamente beneficiariam os trabalhadores ao premiá-los com diversos direitos e garantias, as quais tiveram grande destaque no governo do populista Getúlio Vargas. No fim das contas, é discutível se todos os direitos garantidos aos trabalhadores acabaram por beneficia-los ou se atrasaram o desenvolvimento do país e atrapalharam a livre iniciativa e o empreendedorismo. 

Outro exemplo é o sucesso do programa patrulha do consumidor, do Celso Russomano. Ao procurar os vídeos sobre o tema no Youtube, é certo que nos comentários haverá quase unanimidade de apoiadores às multas ou sanções, às vezes justas e cabíveis aos trambiqueiros, diga-se de passagem.

Qualquer iniciativa que supostamente ataque os direitos sociais (Cláusula Pétrea segundos os burocratas constitucionalistas) é alvo de polêmica e duramente atacada pelos defensores dos oprimidos (sindicatos, ONG's, partidos políticos, entidades sociais). Mesmo que no fim das contas a iniciativa seja positiva em momento posterior, isso é sabido pelos defensores dos oprimidos, eles não são burros. O que deve ser sabido é que o que será bom para a sociedade talvez não seja bom para a manutenção de poder e privilégios dos defensores dos oprimidos. O jogo de interesses pesa mais do que a prática do bem, isso é indiscutível. 

A velha e eterna luta por direitos, de alguns

Conclusão


O que se conclui não é a pregação do ódio ao Estado, aos políticos e aos funcionários públicos ou algo no sentido do anarco capitalismo. O Estado tem importante função na organização social e não se vêm maneiras de mudança drástica do sistema no curto prazo.

O que deve ser ensinado às pessoas é que elas têm uma mente à disposição, portanto, devem exercer a prerrogativa de utilizarem a sua inteligência, devem questionar as ações do Estado e as defesas de interesses egoístas de agentes públicos em prol de si mesmo ou de seus aliados. 

Da próxima vez que ouvir um burocrata defender a regulamentação de alguma coisa, em vez de apoiar cegamente, tente pensar fora da caixa, mais além, para inferir se a proposição tem interesse exclusivamente em prol do bem de toda a sociedade ou se é pra ajudar o amigo, o parente ou algumas classes específicas.

De toda forma, efetivos ou não os dispositivos disponibilizados pela burocracia do Estado, devemos utiliza-las caso tenhamos alguma reclamação para fazer: ouvidoria de órgãos públicos, corregedorias, denuncias aos Ministério Público etc. O importante é que não sejamos escravos mentais do Estado ao deixar que ele pense por nós, ele não deve nos intimidar no exercício do nosso direito de pensar e de opinar, pois somos nós que o sustentamos.